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Momentum

Eu não sou assim, só estou assim.

O clichê diz que algumas vezes o tempo passa mais devagar.

Discordo. O tempo simplesmente passa, inexorável.

Se o tempo fosse colorido, seria cinza. Metálico como lâmina, uma imagem poética e mitológica, muito melhor do que um calendário de papel.

Julieta disse a Romeu, para quem ama, num minuto há muitos dias. Mentiu, Julieta. O amor não tem relógio. Horas passam. Eras passam. O amor não tem nada a ver com isso.

 

Tomada de ternura pelas coisas mais corriqueiras, tenho alegrado meus cachorros. É uma nova fase essa, em que eles podem se deitar sobre meus pés, enquanto me sento no degrau, observando a grama que não cresce no inverno.

O frio aparece de repente, meu nariz fica muito gelado e dolorido. Persigo os degraus, a procura de um restinho de sol. Nem sempre funciona. Às vezes o frio entra, cortante, pelas fendas das roupas. Nesses dias, nem os cachorros aguentam e vão se enrolar em outro lugar. Eu fico lá.

Gostando de sentir os ossos doloridos, porque há muito tempo não tinha oportunidade de me sentir assim, a mercê do tempo, desprotegida. Em nome de uma suposta segurança, entreguei tanto tempo em vão, tentando afastar uma vulnerabilidade que é, provavelmente, a maior prova da minha humanidade. Dói na ponta dos dedos. Estou viva.

Tudo é tão confuso. O tempo não é apenas a afiada foice de Chronos, mas veneno. Um veneno lento, entorpecente, desses que matam aos pouquinhos. Não agem diretamente nos órgãos, mas nos nossos desejos vitais.

As mudanças chegam sem telegrama. Ninguém nos avisa que a vida subiu no telhado.

Quando percebo mudanças ensaio escândalos. Faço um sapateado bizarro, entre outros números bizarros da vida real.

Desde sempre eu quis que tudo continuasse igual. Ruim, mas igual. Medíocre, mas igual. Só por medo, por não poder calcular o que viria depois. E, veja só, hoje já é depois. Amanhã será depois. E depois e depois.

Olho ao redor e enxergo a verdade. Concreta tangível.

Preciso colocar o lixo pra fora. Tirar os esqueletos do armário. Do sofá. Da cama. Da alma.

Aprender a rezar, chorar meus mortos.

Urgentemente, olhar para os vivos. E pra mim.

Aceitar que quando tudo fica de cabeça pra baixo, não deixa de ser sua vida. Os elementos continuam lá, só que de pernas pro ar. É só procurar direitinho, reconhecer. Armar um sorriso pra vida e chamá-la pra dançar.

Se ela não aceitar, espere. O tempo passa.

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Tudo sempre está bem

Quem nunca se dedicou a responder mentalmente essa pergunta trivial?

“Oi, tudo bem?”

– não, não está. Estou muito mal na verdade. Não sei explicar, não há um motivo específico. É um vazio cheio de coisas do passado. Outras do presente. Algumas eu nem sei, pra te falar a verdade. Acho que peguei uns trecos por aí, sem querer e, tum, joguei no meu vazio. E agora é isso. No silêncio esse bicho me consome. Sai das sombras e me pega aqui, no ponto de ônibus. Era pra estar tudo bem, mas eu olhei pra essa senhora aqui do lado e, veja a blusa dela. Tem esses cerzidinhos. Eu olhei pros cerzidinhos e comecei a chorar por dentro. A gente sabe que hoje uma blusa custa o quê? Outo dia vi uma loja onde tudo valia R$12. Juto por Deus, tudo. Aí é esse o mundo, essa senhora aqui do meu lado, ela não tem R$12 pra comprar uma blusa pra ela e está tão frio. O cerzidinho me faz pensar que ela precisou comprar um pouquinho de músculo pra colocar na sopa, que provavelmente tinha batatas e um caldo que imita Knorr, pra render. O cerzidinho é porque ela comprou a touquinha pro neto, que ela leva na escolinha de manhã. Tão bonitinho, com orelhinhas de lã acrílica. Ficou contente, ganhou beijo do tipo brigada-vovó. Ela está bem, conferindo o número do ônibus que vem chegando, mas eu tô aqui, paralisada no cerzidinho.

Tudo bem?
– tava, eu tava bem sim. Aí vi que era hora do almoço e veio aquela vontade de comer uma coisa bem gostosa. O diacho de vontades de coisas que a gente nunca sabe o que é. Pensei que fosse esfiha. Lembrei que tem 3 dedos de massa e aroma natural de recheio. E nhoque? Certeza que é nhoque. Aonde vou encontrar nhoque aqui, agora? De batata, de mandioquinha. Ai, eu matava por um nhoque de mandioquinha agora. Matar, melhor verbo. Não posso comer farinha. Eu e o maldito mundo moderno. Tacaram química no trigo, deu no que deu. Esfiha ou nhoque, é comer e preferir estar morta – pelo menos nos próximos 2 dias. Minha avó diz que nhoque bom não leva farinha. Bem-vinda, Vó, ao mundo sem nhoque bom. Como se isso me impedisse de me entupir de farinha. É só comer e não reclamar; mas fica a consciência sussurrando: tá morrendo de farinha…tá morrendo de farinha. Queria ser dessas pessoas que perdem a fome. Nunca fui, jamais serei. Tenho detector de fome. Eu sou a fome. Me mate de uma vez, me dê pão, por favor.

Tudo bem?
– que bom que você perguntou. Sabe que não sei? De repente alguém de fora pode me ajudar. Tem essa coisa que eu não sei explicar. É um termômetro todo meu, natural, e às vezes ele marca -30 graus. Do nada. Acordo e está lá, tudo congelado. Não faz o menor sentido. Do lado de fora nada mudou. Nenhum dado novo a acrescentar. Ontem, temperatura amena, 22 graus, a vida fluindo. Hoje, me dói o ciático, incomodado pela armadura glacial. O que eu olho tem essa distância a mais, provocada pela crosta de gelo. Não é que eu não enxergue, mas os contornos ficam comprometidos. Só não me peça pra tocar em algo sem luvas. Provavelmente não vou chegar nem perto da superfície com tanto forro e isolamento. Mas eu toco. Eu carrego, eu aceno. Sou funcional, percebe? Só não posso adivinhar com que acessórios vou acordar, luva de pelica ou óculos de sol. Que mal tem, né mesmo? Questão de adaptar. Eu me adapto; deve ser mais difícil pros outros, pra quem está perto.

Mas estou monopolizando a conversa, e você, tudo bem?

Ué, sumiu, tava aqui agora mesmo.

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Não me basto, preciso andar

Estamos na Central do Textão, o Blog dos Blogs!
Como o nome denuncia, lá você pode encontrar vários blogs que se
dedicam a velha arte dos escribas, agora convertidos em bytes.
Reunidos em um só lugar, para que o leitor, assíduo ou eventual,
possa desfrutar de muitas histórias, sob os pontos de vista mais variados

que essa internet velha sem fronteiras pode oferecer.

central do textão

O suficiente é só um vocábulo perdido na linguagem. A Chegada é um lugar que não existe. Do limite físico cai apenas o excedente, respingos, mas o copo segue cheio, até a tampa.

Dinheiro, amor, oxigênio, nada. Pra continuar a gente precisa estar inquieto, transbordando, perseguindo mais e mais, assim, meio que descontente.

Se a engrenagem degringola é para nunca parar. Dessa ânsia veio a invenção da roda, do avião. Da escada rolante, não. Nem do elevador. Foi preciso um outro tipo de ser humano para inventá-los, alguém com muito mais placidez do que inquietude; que apertasse um botão e suportasse esperar a sua vez de subir.

Equilíbrio dinâmico é o que nos permite andar de bicicleta. Equilíbrio dinâmico é o que me permite viver. Minha inquietude é nata, está ali. Tenho formigas no corpo e na suposta alma. Padeço de borboletice mental.

Escrever é minha garantia de passagem só de ida. Sento no banco de trás e digo ao condutor cerebral, just drive.

Leio e escrevo como quem revira caçambas. Participo de banquetes nababescos sem jamais conhecer a plenitude (alguém realmente sabe quando parar em um banquete?). Já tive indigestões literárias e cometi orgias textuais.

Ler é fácil. Palavras ficam sempre ali, boas ou ruins, alinhadas uma depois da outra, em fila indiana. Da esquerda para a direita – por enquanto só leio e escrevo em padrões ocidentais.

Difícil mesmo é escrever quando se vive na inquietude. O raciocínio nem de longe se parece com uma linha reta. Está mais para um novelo emaranhado, desses que os gatos jogam pra lá e pra cá. O prazer não está em encontrar o fio da meada, mas tornar essa tarefa impossível.

Ao cabo, um leitor voraz muitas vezes prefere não escrever, ou escreve com medo. Literalmente com as pontas dos dedos. Tem receio de confundir, falar bobagem, chocar. Pior ainda, dar de cara com o horror de não se fazer compreender.
Pior do que ser mal compreendido? Ser compreendido e ignorado. Receber do leitor um grande bleh.

A não ser que.

Dane-se a coisa toda!

Equilíbrio dinâmico. Se você não escrever você vai cair. Perdão, Leitor, mas não posso me machucar. Dada a largada, cada parágrafo é minha história fundamental. Aumento a velocidade enquanto percorro esquinas de um mapa impresso de cabeça pra baixo. Minhas avenidas, as vielas do carona, sinalizações escritas com vinho, manchetes eletrônicas piscando. Quem colocou essa história ali?! Não posso parar, não desvio. Atropelo, recebo as multas.

Desequilibradamente mantenho meu curso, minha salvação.

Perco o medo ao mesmo tempo em que abro mão dos sentidos.

O que eu escrevo é isso aí. O registro que surge da viagem desembestada. A minha vida nunca é a mesma por dois dias consecutivos. Lendo o que eu escrevo, desejo que vocês descubram que a sua também não. A de ninguém é. Não pode ser.

Se um dia quiser escrever, permita deixar-se invadir pelas esquinas do mundo e dos outros. Afrouxe o cinto. O desastre nesse caso, é um espetáculo fundamental. De descoberta, de novos ângulos, de vida após a vida.

03

Molambo

para minha mãe.

A garganta arranhava, como se acometida por uma afecção.
Recostou-se na cabeceira da cama, puxando pra si o travesseiro cor-de-rosa. Mordeu o babado, como de costume. Ao redor, reparou que tudo se mantinha em ordem. A irritante ordem natural das coisas que não se alterava mesmo com tudo que havia acontecido.

Como porta retratos podem permanecer estáticos, quando seus personagens não existem mais? Como frascos de perfume não mudam de cor, quando todo o resto turva?

Tantas coisas que não ensinam na escola. Viver se revelava uma repetência contínua, uma reprovação eterna. Notas vermelhas como a tarde de ontem. Como os olhos dela hoje.

Nunca mais abriria as janelas. Não queria voltar a ver o sol. Ele não passava de outra mentira. Um convite falso, que se estendia pela manhã. Ópio que entrava pela pele, mudando sua a percepção da realidade e das pessoas.

As pessoas, a pior das ilusões. Uma grande história pra crianças, o faz de conta da existência humana. O que ela conhecia eram grandes organismos organizados em sociedades. Colônias de bactérias. Vírus, protozoários. Exatamente aí podia identificar o grande erro. Agira o tempo todo como se não fizesse parte daquilo. Como se fosse a droga de um antibiótico qualquer, capaz de sobreviver a toda sorte de ataque. Besteira.

Ela era igual a todos eles. Um tipo simples de parasita que precisava sempre se instalar confortavelmente em outro corpo, se recusava a sobreviver sozinha e por si só.

E quando o hospedeiro se vai, sobra apenas o trapo humano; um molambo desses que as crianças arrastam por toda a infância, pra abandonar à imundice depois.

Imunda, essa placidez passiva que a irritava agora. Foi alçada ao trono exclusivo da vítima, que se mostrava tão incômodo quanto indigno. Vítimas não são essencialmente fracas, apesar do desabamento, dos destroços, algo pulsava mais forte.

Desamparada e estranhamente forte, mesmo sem antes saber que isso fosse possível. A gente não escolhe o momento em que as sensações vão nos beijar.

Nutrindo e se multiplicando descontroladamente, a força foi tomando conta da cama, do quarto, do corpo, dos babados e das pelúcias.

Tudo em volta foi cedendo espaço e inflando. Inchando, até que num baque ensurdecedor, foi pelos ares.

O estilhaçar daquele momento provocou um ruído tão agudo que fez vibrar até os cacos. Foram trincando e se quebrando em partes cada vez menores, até que tudo que sobrou foi pó.

De repente ela, que esqueceu da própria morte, assoprava agora o passado para longe de si.

Olhou em volta e enxergou melhor o vazio. Um vazio só de sentido, soube segundos depois que ali havia muitas coisas. Coisas que ela tinha certeza que não eram mais dela.

Tentou dar um passo e caiu. Percebeu que não sabia mais andar. Tentou falar e não conseguiu, porque não conhecia o sentido das palavras.

Incrivelmente nada doía. Nada.

Sentiu o peso das próprias pálpebras quando instintivamente as fechou. Caiu logo num sono profundo, do qual só acordaria muitas horas depois.

Estava acabado, então.

O sol continuaria a brilhar do lado de fora, mesmo com a janela fechada. E isso era bom, muito bom. Porque todo mundo precisa dele quando há muito trabalho a fazer.

Ela teria dias cheios ao despertar, uma vida nova leva tempo pra construir.

Pra isso, ela só precisa da coragem pra abrir os olhos. E começar.

10

Uma Dama

Em algum lugar da Europa; 1900 e pouco.

“Por mim, eu não mentiria jamais. Que isso fique bem claro, jamais.

Eu bem disse: por mim. Os outros não pensam assim; no que sou levada, constantemente, a construir, como dizer, afirmações que nem sempre condizem com a realidade crua dos fatos. E com a hipocrisia de muitos contemporâneos meus.

Juro que tentei fugir desta natureza ruinosa que me foi destinada. Porém, em cada parte do meu corpo há um grito muito maior do que a ênfase que o vigário embute nos Mandamentos. E existem muitas dentro de mim, enquanto os Mandamentos são apenas dez. Vê-se logo que a primeira batalha já se inicia perdida.

Mas era de mentira que eu falava, e de como fui aprisionada em sua morada, contra minha vontade.

Nascer mulher já é uma forma de principiar mentindo. De cada palavra proferida, em alto e bom som, pelo pai, até o beijo ordenado pelo padre, há dezenas, centenas de pequenas mentiras, escondidas em nossos consentimentos tímidos. Na nossa cabeça sempre baixa, nos nossos olhos que sempre se voltam para o chão.

Não sou nem um pouco diferente das outras. Ou não era. Também consenti. Também baixei o olhar e vim parar aqui, com as mãos enfiadas nessa água gordurosa da louça do jantar que eu mesma preparei.

Jantar preparado às pressas, depois que ela, a Louca, chegou. Veio da rua, arfando, ruborizada e enfiou-se nesse corpo de avental, que prontamente se pôs a preparar o feijão.

No fundo penso que ela sempre esteve aqui. É certo que nunca foi tão livre, mas soube aguardar o momento certo para tomar de assalto essa vida morna que aqui jazia.

O ofício da mentira eu já conhecia antes da sua chegada, não há como negar. Em cada sorriso contido aos rapazes no passeio. Em cada beijo sem desejo nesse marido que eu não escolhi. E no prazer mais do que mentiroso, falso, circense até, naquelas noites semanais sob os lençóis que eu bordei.

Enfim, ela, a Louca, soube terminar o que aquela voz perdida em minha cabeça iniciara. Um dia, sem maiores preâmbulos, soltou-se das amarras de falsa decência e atirou-se porta afora.

Uma Louca sem nome e sem dono. Que toma o bonde até o mais distante que o tempo lhe permite ir. A mulher-lábios, a mulher-perfume. Talvez faminta. Que busca com o olhar um Estranho que lhe sirva. Qualquer um, cujo cheiro lhe agrade. Qualquer um como ela, sem nome, sem rosto. Apenas alguém.

Porque só os estranhos conhecem a volúpia. Ou talvez a volúpia seja apenas um presente embutido na surpresa da primeira vez. E sempre é primeira vez, porque a Louca nunca é a mesma e o Estranho também não.

Daí a necessidade da mentira. A sociedade não está preparada para verdades nuas. Não tão nuas quanto quanto loucas e estranhos.

As damas ainda precisam mentir para que as Loucas gozem.”

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A Sapiência

Quem são os sábios que assinam os ditados?

Fora a sabedoria compartilhada na internet, quase sempre atribuída à Clarice Lispector, Arnaldo Jabor, Jô Soares e Pedro Bial; os demais ditados provém da misteriosa China, daí meu completo desconhecimento sobre a origem da profunda sapiência.

De qualquer modo, acho muito esperto isso de resumir, em uma linha ou duas, o conhecimento necessário para resolver de forma universal desde os pequenos problemas cotidianos até as questões mais profundas que afligem o ser humano.

Uma pena que só funcione pros outros, porque pra mim nunca deu muito certo, não.

Uma dessas máximas filosóficas diz assim: “Antes de sair para mudar o mundo, dê três voltas completas dentro de sua própria casa”. Está bem. Isso porque o sábio está lá na China e não dentro da minha casa.

Se ele soubesse que a porta de entrada sofreu uma mutação depois de uma chuva e, por efeito da umidade relativa do ar, jamais há de abrir e fechar novamente. Não sem uma intervenção violenta do meu pé.

O miolo da fechadura está emperrando desde a ultima primavera. Preciso trocar, sei que preciso trocar. Mas só me lembro disso quando chego em casa e a chave fica presa. Meia hora depois, quando consigo soltar, minha cabeça também se solta dessa lembrança e o incômodo vai se arrastando.

Armários de roupas não constituem exatamente um problema. Em minha concepção, são universos paralelos. Abra uma porta e mergulhe no desconhecido. Sobreviva se for capaz. Quem é que não gosta de uma aventura, logo de manhã? O desafio de sair vestida todos os dias.

Um ser alienígena divide o teto conosco. Ainda que eu nunca tenha estado frente a frente com a criatura, sou convicta de sua existência: ela se alimenta das minhas meias. Algumas consome logo que as tiro (onde?). Outras, guarda pra comer depois, sem me dizer nada, no compartimento de roupas para lavar. Sempre no fundo, aonde a mão não alcança.

O armário da cozinha foi invadido por formigas minúsculas, que adoram biscoitos de banana e canela, assim como eu. Embora eu não compartilhe sua predileção por disjuntores e qualquer placa eletrônica. Elas adoram, tanto quanto qualquer resíduo de calda de pudim.

É consenso que nada mais presta atualmente, vivemos no conforto de objetos descartáveis, mas concordam que espelhos com molduras de plástico sejam humilhação demais? Principalmente quando a pintura era metálica e você só descobre que se tratava de polietileno depois dele se autodestruir, no vapor do chuveiro?

Portão? Portão pra que? Estou no interior e as preocupações com grades e cadeados ficaram pra trás, no coração da cidade maligna. Muito melhor essa casa assim, sem portões ou muros, no melhor estilo american way of life. Isso eu pensava até a semana passada, quando roubaram a mangueira do quintal. Agora preciso de um portão, antes que levem os cachorros.

Pensando bem, não seria má ideia se alguém levasse os cachorros. Eu não precisaria mais me preocupar em comprar a ração certa. Digo ‘certa’ porque eles não gostam daquela que tem chicória. Você já sentiu a mágoa no olhar de um cachorro que recebe ração que contém chicória? Nem queira, nem queira.

E aí chegamos ao ponto. Por que não usam o conhecimento adquirido sobre os benefícios da chicória para aplacar a fome no mundo? A fome das pessoas e não dos cachorros, que obviamente não se dobram diante do valor nutricional dos alimentos.

Ou poderiam se concentrar na questão da ausência de Paz Mundial; nas novas epidemias de velhas doenças, o analfabetismo funcional, na miséria do corpo e da alma que cedo ou tarde assola a todos. Questões coletivas não faltam, mas o sábio chinês quer que eu dê voltas no meu quintal para, em seguida, passar e dobrar minhas roupas. Que eu chame o chaveiro, que eu vá ao supermercado. Quer que eu resolva minhas mixarias pessoais.

Que me perdoem os sábios, mas prefiro me colocar a serviço da humanidade. Vou é organizar uma seita, convocar uma guerrilha ou algo assim, de fundo anarquista e revolucionário. Preciso fazer alguma coisa.

Influenciar pessoas.

Mudar o mundo. Sair do lugar.

Talvez seja uma boa ideia desemperrar essa porta primeiro…

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LSD

Afinal, de que lado você está?

Nesse momento, eu estou aqui, brincando de letra espalhada na tela, do lado de cá.

Você, por sua vez, provavelmente sentado, segura seu queixo, enquanto me segue, até o pontinho, do lado de lá.

Veja bem, é uma questão de ponto de vista. Depende de quem vê. E, principalmente, se quer ver. Vamos ver como é que vai terminar. Eu escrevo e você lê. Acompanha, gostando ou não, só pra ver no que vai dar.

Pra mim, esse momento é uma janela. Uma porta, um espaço. Onde eu fecho a caixa que Pandora abriu e fico olhando tudo em volta girar.

Pra mim é a hora da verdade, um minuto de silêncio, uma epifania, uma eclosão.

É onde eu deixo correr solto o que em mim há de mais sinistro, doido, esquisito. É quando mostro meu lado infame, esdrúxulo e mesquinho, dizendo aquilo que eu quero ouvir.

Quando dou risada sozinha, quando choro pro monitor, sujo de chocolate o mouse.

É a hora em que converso. Alucinadamente, silenciosamente. No arranjo lisérgico que as palavras arranjam, nessa dança esquisita que a mente faz.

É quando tudo que vier é lucro. É quando a mocinha beija o herói. Ou estapeia a cara dele.

Um momento em que minto descaradamente. Me lembro do passado, de repente. É quando eu invento o que não vivi.

É quando encontro o quadrado da raiz ao cubo. Observo o foguete explodir e a gente aplaude as figuras que os destroços formam na areia.

O preciso instante em que se abre a cortina. A vergonha passa, a solidão termina. Porque agora somos nós dois, eu + você.

É muito sutil esse breve momento. É o pulo do milho na chapa quente, o estouro da pipoca vestida de noiva.

Essa nova sintonia de clique, quando você bate o olho e diz, ou melhor, decide, se gosta ou não de mim.

Mas não é sempre assim, sempre igual. Porque tem dias em que sou o marinheiro que gosta de espinafre e sempre venço no final. Mas também posso acordar bandido e ter minha cabeça pendurada na London Bridge, por ordem do rei.

Eu só mostro, só começo, insinuo.

Do fio da minha meada, o tapete é todo seu. Depois decida se ele vai voar ou virar capacho.

Vai ver que no fundo, isso é uma declaração. Eu aqui, presa no aquário do monitor, gritando binariamente por atenção. Fazendo desse espaço sem dono nem fronteira meu caderno de caligrafia, onde treino minha letra redondinha.

Então, faz assim: continua lendo, vai. Se precisar, você me corrige. Ou discorda. Ou discute. Diz que não é nada disso e que eu deveria comer menos carboidratos no jantar. Mas diz.

Diga alguma coisa, sempre. Porque palavras são criaturas (sim!) que se ressentem. Na falta do eco, da resposta, elas vão diminuindo de volume. A caixa alta vai perdendo a pose e vai sumindo, sumindo. E, o que era proparoxítona, vira ponto final.

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Viva a Diferença

Dizem que a principal diferença entre o homem e os outros animais é que o Homem é um animal racional. Aquele que pensa, logo existe.

Teorias, o que seria dos teóricos sem elas? Talvez contadores de histórias. Ou nem isso.

Observando o comportamento animal,  você já viu uma macaca chorando porque o macaco disse umas barbaridades pra ela?

Um leão ronronando pelos cantos porque a leoa, há dias, não liga mais?

Que tal um lobo atiçando a matilha contra o bando de avestruzes, só porque eles não tinham coisa melhor pra fazer? Não. Eu sei que você nunca viu. Nem no National Geographic Channel. Simplesmente, porque não funciona assim no reino animal. É justamente por isso que funciona! Por essa mesma razão, a natureza tem seus chamados Reinos e não Sociedades.

Bicho come quando tem fome. Quando tem sede, ele bebe. Cruza quando está no cio. Protege seus filhotes, mas quando ouve o chamado da maturidade, bota pra correr.

Bicho rola de barriga pra cima quando faz sol. Se defende atacando. Só mata pra sobreviver. Isso tudo eles fazem “sem pensar”, tá?

Bicho-homem, não. Pensante por natureza, é domesticado desde pequenininho. Não faça isso! Não toque naquilo! Isso não pode! Assim, não! Tire o dedo do nariz! Não coloque a mão na boca! Não coloque a mão na bunda! Não diga bunda! Não mexa! Não corra! Não!

O aprendizado do Homem nunca termina. Sua vida é repleta de conhecimento. Só é estranha a maneira como ele decide como e quando usar todo esse poder cognitivo. Tem gente que descobre vacinas. Tem gente que aprimora venenos. Um deles inventou a bomba hidráulica. Outro inventou a bomba atômica.

Ser humano inventou a farsa, o teatro. Um jeito de mostrar pro mundo as várias faces que se pode ter. A verdade travestida de mentira, com aplausos no final.

Tem bicho que entra em extinção, tamanha matança que o Pensador promove. Bicho-homem, não. Por mais chacinas que ele providencie, a densidade demográfica vai sempre pro alto. E avante.

Estão clonando os bichos, é verdade. Reproduzindo animaizinhos em escala industrial. Agora a meta é clonar o inventor do clone. Pra um clone clonar o outro é um pulo. Quem viver verá.

Mas essas diferenças hoje não têm muita importância.

Já tiveram, quando a humanidade se relacionava. Hoje, não. O negócio é todo feito por sinais invisíveis que se estendem pelo ar. Cabos. Satélites, criptografia. Ninguém mais precisa sair gritando por aí pra humilhar, ofender. Nem pra fazer carinho. A tecnologia deu conta disso também. ‘Adicionar’ ou ‘Deletar’, questões modernas, coisa de clique. Admirável mundo novo, como previu um livro que hoje é considerado velho. De outro século, exatamente.

Estou quase entregando os pontos, devolvendo meu diploma de racional. Nessa brincadeira de um dia ser bigorna pra no outro ser martelo, a gente perde muitos pedaços, vai ficando manco, perde o pelo e o brilho. Igual aos bichos, mesmo.

Já que a comparação é inevitável, vou embarcar nela de vez. Igual gato escaldado, vou rolar na grama de barriga pra cima. Aproveitar o sol. Ofereço meu mindinho pro mundo, cansei de brigar. Tô de bem.