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A Sapiência

26 de abril de 2016

Quem são os sábios que assinam os ditados?

Fora a sabedoria compartilhada na internet, quase sempre atribuída à Clarice Lispector, Arnaldo Jabor, Jô Soares e Pedro Bial; os demais ditados provém da misteriosa China, daí meu completo desconhecimento sobre a origem da profunda sapiência.

De qualquer modo, acho muito esperto isso de resumir, em uma linha ou duas, o conhecimento necessário para resolver de forma universal desde os pequenos problemas cotidianos até as questões mais profundas que afligem o ser humano.

Uma pena que só funcione pros outros, porque pra mim nunca deu muito certo, não.

Uma dessas máximas filosóficas diz assim: “Antes de sair para mudar o mundo, dê três voltas completas dentro de sua própria casa”. Está bem. Isso porque o sábio está lá na China e não dentro da minha casa.

Se ele soubesse que a porta de entrada sofreu uma mutação depois de uma chuva e, por efeito da umidade relativa do ar, jamais há de abrir e fechar novamente. Não sem uma intervenção violenta do meu pé.

O miolo da fechadura está emperrando desde a ultima primavera. Preciso trocar, sei que preciso trocar. Mas só me lembro disso quando chego em casa e a chave fica presa. Meia hora depois, quando consigo soltar, minha cabeça também se solta dessa lembrança e o incômodo vai se arrastando.

Armários de roupas não constituem exatamente um problema. Em minha concepção, são universos paralelos. Abra uma porta e mergulhe no desconhecido. Sobreviva se for capaz. Quem é que não gosta de uma aventura, logo de manhã? O desafio de sair vestida todos os dias.

Um ser alienígena divide o teto conosco. Ainda que eu nunca tenha estado frente a frente com a criatura, sou convicta de sua existência: ela se alimenta das minhas meias. Algumas consome logo que as tiro (onde?). Outras, guarda pra comer depois, sem me dizer nada, no compartimento de roupas para lavar. Sempre no fundo, aonde a mão não alcança.

O armário da cozinha foi invadido por formigas minúsculas, que adoram biscoitos de banana e canela, assim como eu. Embora eu não compartilhe sua predileção por disjuntores e qualquer placa eletrônica. Elas adoram, tanto quanto qualquer resíduo de calda de pudim.

É consenso que nada mais presta atualmente, vivemos no conforto de objetos descartáveis, mas concordam que espelhos com molduras de plástico sejam humilhação demais? Principalmente quando a pintura era metálica e você só descobre que se tratava de polietileno depois dele se autodestruir, no vapor do chuveiro?

Portão? Portão pra que? Estou no interior e as preocupações com grades e cadeados ficaram pra trás, no coração da cidade maligna. Muito melhor essa casa assim, sem portões ou muros, no melhor estilo american way of life. Isso eu pensava até a semana passada, quando roubaram a mangueira do quintal. Agora preciso de um portão, antes que levem os cachorros.

Pensando bem, não seria má ideia se alguém levasse os cachorros. Eu não precisaria mais me preocupar em comprar a ração certa. Digo ‘certa’ porque eles não gostam daquela que tem chicória. Você já sentiu a mágoa no olhar de um cachorro que recebe ração que contém chicória? Nem queira, nem queira.

E aí chegamos ao ponto. Por que não usam o conhecimento adquirido sobre os benefícios da chicória para aplacar a fome no mundo? A fome das pessoas e não dos cachorros, que obviamente não se dobram diante do valor nutricional dos alimentos.

Ou poderiam se concentrar na questão da ausência de Paz Mundial; nas novas epidemias de velhas doenças, o analfabetismo funcional, na miséria do corpo e da alma que cedo ou tarde assola a todos. Questões coletivas não faltam, mas o sábio chinês quer que eu dê voltas no meu quintal para, em seguida, passar e dobrar minhas roupas. Que eu chame o chaveiro, que eu vá ao supermercado. Quer que eu resolva minhas mixarias pessoais.

Que me perdoem os sábios, mas prefiro me colocar a serviço da humanidade. Vou é organizar uma seita, convocar uma guerrilha ou algo assim, de fundo anarquista e revolucionário. Preciso fazer alguma coisa.

Influenciar pessoas.

Mudar o mundo. Sair do lugar.

Talvez seja uma boa ideia desemperrar essa porta primeiro…

3 thoughts on “A Sapiência

  1. Muito bom Vivi!!! vc pode começar a mudar o mundo por onde quiser. De dentro de casa, de fora, por cima, por baixo… O importante é não deixar do jeito que está.

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