gaba

LSD

11 de abril de 2016

Afinal, de que lado você está?

Nesse momento, eu estou aqui, brincando de letra espalhada na tela, do lado de cá.

Você, por sua vez, provavelmente sentado, segura seu queixo, enquanto me segue, até o pontinho, do lado de lá.

Veja bem, é uma questão de ponto de vista. Depende de quem vê. E, principalmente, se quer ver. Vamos ver como é que vai terminar. Eu escrevo e você lê. Acompanha, gostando ou não, só pra ver no que vai dar.

Pra mim, esse momento é uma janela. Uma porta, um espaço. Onde eu fecho a caixa que Pandora abriu e fico olhando tudo em volta girar.

Pra mim é a hora da verdade, um minuto de silêncio, uma epifania, uma eclosão.

É onde eu deixo correr solto o que em mim há de mais sinistro, doido, esquisito. É quando mostro meu lado infame, esdrúxulo e mesquinho, dizendo aquilo que eu quero ouvir.

Quando dou risada sozinha, quando choro pro monitor, sujo de chocolate o mouse.

É a hora em que converso. Alucinadamente, silenciosamente. No arranjo lisérgico que as palavras arranjam, nessa dança esquisita que a mente faz.

É quando tudo que vier é lucro. É quando a mocinha beija o herói. Ou estapeia a cara dele.

Um momento em que minto descaradamente. Me lembro do passado, de repente. É quando eu invento o que não vivi.

É quando encontro o quadrado da raiz ao cubo. Observo o foguete explodir e a gente aplaude as figuras que os destroços formam na areia.

O preciso instante em que se abre a cortina. A vergonha passa, a solidão termina. Porque agora somos nós dois, eu + você.

É muito sutil esse breve momento. É o pulo do milho na chapa quente, o estouro da pipoca vestida de noiva.

Essa nova sintonia de clique, quando você bate o olho e diz, ou melhor, decide, se gosta ou não de mim.

Mas não é sempre assim, sempre igual. Porque tem dias em que sou o marinheiro que gosta de espinafre e sempre venço no final. Mas também posso acordar bandido e ter minha cabeça pendurada na London Bridge, por ordem do rei.

Eu só mostro, só começo, insinuo.

Do fio da minha meada, o tapete é todo seu. Depois decida se ele vai voar ou virar capacho.

Vai ver que no fundo, isso é uma declaração. Eu aqui, presa no aquário do monitor, gritando binariamente por atenção. Fazendo desse espaço sem dono nem fronteira meu caderno de caligrafia, onde treino minha letra redondinha.

Então, faz assim: continua lendo, vai. Se precisar, você me corrige. Ou discorda. Ou discute. Diz que não é nada disso e que eu deveria comer menos carboidratos no jantar. Mas diz.

Diga alguma coisa, sempre. Porque palavras são criaturas (sim!) que se ressentem. Na falta do eco, da resposta, elas vão diminuindo de volume. A caixa alta vai perdendo a pose e vai sumindo, sumindo. E, o que era proparoxítona, vira ponto final.

5 thoughts on “LSD

  1. Só posso dizer que sempre vou estar com vc.
    Uma consoante,outra vogal nesse conjunto bonito,cheio de palavrinhas e que também é cheio de distância com encontros raros.
    Onde a amizade e tanta.
    Que por mais raros que foram sempre se bastaram.

  2. Posso falar? Sempre achei que você devia escrever e sempre te falei isso.
    E se posso falar? Eu não, só devo ler e ler e ler mais, porque é sempre delicioso.

  3. Eu pensei em palavras difíceis para responder o que achei do que li agora, talvez criar a poesia, ou uma mensagem profunda com palavras fortes, mas a única coisa que eu consigo pensar em escrever para ser o mais autêntica possível é um palavrão, o primeiro que veio a mente quando terminei de ler estas linhas:
    Caralho!!! Tu escreve muito bem!!! Um dia eu chego lá!

    Beijos!

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