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Molambo

6 de maio de 2016

para minha mãe.

A garganta arranhava, como se acometida por uma afecção.
Recostou-se na cabeceira da cama, puxando pra si o travesseiro cor-de-rosa. Mordeu o babado, como de costume. Ao redor, reparou que tudo se mantinha em ordem. A irritante ordem natural das coisas que não se alterava mesmo com tudo que havia acontecido.

Como porta retratos podem permanecer estáticos, quando seus personagens não existem mais? Como frascos de perfume não mudam de cor, quando todo o resto turva?

Tantas coisas que não ensinam na escola. Viver se revelava uma repetência contínua, uma reprovação eterna. Notas vermelhas como a tarde de ontem. Como os olhos dela hoje.

Nunca mais abriria as janelas. Não queria voltar a ver o sol. Ele não passava de outra mentira. Um convite falso, que se estendia pela manhã. Ópio que entrava pela pele, mudando sua a percepção da realidade e das pessoas.

As pessoas, a pior das ilusões. Uma grande história pra crianças, o faz de conta da existência humana. O que ela conhecia eram grandes organismos organizados em sociedades. Colônias de bactérias. Vírus, protozoários. Exatamente aí podia identificar o grande erro. Agira o tempo todo como se não fizesse parte daquilo. Como se fosse a droga de um antibiótico qualquer, capaz de sobreviver a toda sorte de ataque. Besteira.

Ela era igual a todos eles. Um tipo simples de parasita que precisava sempre se instalar confortavelmente em outro corpo, se recusava a sobreviver sozinha e por si só.

E quando o hospedeiro se vai, sobra apenas o trapo humano; um molambo desses que as crianças arrastam por toda a infância, pra abandonar à imundice depois.

Imunda, essa placidez passiva que a irritava agora. Foi alçada ao trono exclusivo da vítima, que se mostrava tão incômodo quanto indigno. Vítimas não são essencialmente fracas, apesar do desabamento, dos destroços, algo pulsava mais forte.

Desamparada e estranhamente forte, mesmo sem antes saber que isso fosse possível. A gente não escolhe o momento em que as sensações vão nos beijar.

Nutrindo e se multiplicando descontroladamente, a força foi tomando conta da cama, do quarto, do corpo, dos babados e das pelúcias.

Tudo em volta foi cedendo espaço e inflando. Inchando, até que num baque ensurdecedor, foi pelos ares.

O estilhaçar daquele momento provocou um ruído tão agudo que fez vibrar até os cacos. Foram trincando e se quebrando em partes cada vez menores, até que tudo que sobrou foi pó.

De repente ela, que esqueceu da própria morte, assoprava agora o passado para longe de si.

Olhou em volta e enxergou melhor o vazio. Um vazio só de sentido, soube segundos depois que ali havia muitas coisas. Coisas que ela tinha certeza que não eram mais dela.

Tentou dar um passo e caiu. Percebeu que não sabia mais andar. Tentou falar e não conseguiu, porque não conhecia o sentido das palavras.

Incrivelmente nada doía. Nada.

Sentiu o peso das próprias pálpebras quando instintivamente as fechou. Caiu logo num sono profundo, do qual só acordaria muitas horas depois.

Estava acabado, então.

O sol continuaria a brilhar do lado de fora, mesmo com a janela fechada. E isso era bom, muito bom. Porque todo mundo precisa dele quando há muito trabalho a fazer.

Ela teria dias cheios ao despertar, uma vida nova leva tempo pra construir.

Pra isso, ela só precisa da coragem pra abrir os olhos. E começar.

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