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Momentum

25 de maio de 2016

Eu não sou assim, só estou assim.

O clichê diz que algumas vezes o tempo passa mais devagar.

Discordo. O tempo simplesmente passa, inexorável.

Se o tempo fosse colorido, seria cinza. Metálico como lâmina, uma imagem poética e mitológica, muito melhor do que um calendário de papel.

Julieta disse a Romeu, para quem ama, num minuto há muitos dias. Mentiu, Julieta. O amor não tem relógio. Horas passam. Eras passam. O amor não tem nada a ver com isso.

 

Tomada de ternura pelas coisas mais corriqueiras, tenho alegrado meus cachorros. É uma nova fase essa, em que eles podem se deitar sobre meus pés, enquanto me sento no degrau, observando a grama que não cresce no inverno.

O frio aparece de repente, meu nariz fica muito gelado e dolorido. Persigo os degraus, a procura de um restinho de sol. Nem sempre funciona. Às vezes o frio entra, cortante, pelas fendas das roupas. Nesses dias, nem os cachorros aguentam e vão se enrolar em outro lugar. Eu fico lá.

Gostando de sentir os ossos doloridos, porque há muito tempo não tinha oportunidade de me sentir assim, a mercê do tempo, desprotegida. Em nome de uma suposta segurança, entreguei tanto tempo em vão, tentando afastar uma vulnerabilidade que é, provavelmente, a maior prova da minha humanidade. Dói na ponta dos dedos. Estou viva.

Tudo é tão confuso. O tempo não é apenas a afiada foice de Chronos, mas veneno. Um veneno lento, entorpecente, desses que matam aos pouquinhos. Não agem diretamente nos órgãos, mas nos nossos desejos vitais.

As mudanças chegam sem telegrama. Ninguém nos avisa que a vida subiu no telhado.

Quando percebo mudanças ensaio escândalos. Faço um sapateado bizarro, entre outros números bizarros da vida real.

Desde sempre eu quis que tudo continuasse igual. Ruim, mas igual. Medíocre, mas igual. Só por medo, por não poder calcular o que viria depois. E, veja só, hoje já é depois. Amanhã será depois. E depois e depois.

Olho ao redor e enxergo a verdade. Concreta tangível.

Preciso colocar o lixo pra fora. Tirar os esqueletos do armário. Do sofá. Da cama. Da alma.

Aprender a rezar, chorar meus mortos.

Urgentemente, olhar para os vivos. E pra mim.

Aceitar que quando tudo fica de cabeça pra baixo, não deixa de ser sua vida. Os elementos continuam lá, só que de pernas pro ar. É só procurar direitinho, reconhecer. Armar um sorriso pra vida e chamá-la pra dançar.

Se ela não aceitar, espere. O tempo passa.

8 thoughts on “Momentum

    1. Funcionou muito bem pra ele, Luciana. Tomara que pra você também.
      Eu ainda preciso adquirir um pouco mais de tranquilidade em relação a esse desfile das horas 😉

      “Fiz um acordo de coexistência pacífica com o tempo:
      Nem ele me persegue, nem eu fujo dele, um dia a gente se encontra.”

  1. Pensar em tempo, no meu tempo por aqui, me da uma aflição e ataca minha irremediável ansiedade. Quero um pouquinho de coragem para chama-lo para dançar.

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