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Não me basto, preciso andar

18 de maio de 2016

Estamos na Central do Textão, o Blog dos Blogs!
Como o nome denuncia, lá você pode encontrar vários blogs que se
dedicam a velha arte dos escribas, agora convertidos em bytes.
Reunidos em um só lugar, para que o leitor, assíduo ou eventual,
possa desfrutar de muitas histórias, sob os pontos de vista mais variados

que essa internet velha sem fronteiras pode oferecer.

central do textão

O suficiente é só um vocábulo perdido na linguagem. A Chegada é um lugar que não existe. Do limite físico cai apenas o excedente, respingos, mas o copo segue cheio, até a tampa.

Dinheiro, amor, oxigênio, nada. Pra continuar a gente precisa estar inquieto, transbordando, perseguindo mais e mais, assim, meio que descontente.

Se a engrenagem degringola é para nunca parar. Dessa ânsia veio a invenção da roda, do avião. Da escada rolante, não. Nem do elevador. Foi preciso um outro tipo de ser humano para inventá-los, alguém com muito mais placidez do que inquietude; que apertasse um botão e suportasse esperar a sua vez de subir.

Equilíbrio dinâmico é o que nos permite andar de bicicleta. Equilíbrio dinâmico é o que me permite viver. Minha inquietude é nata, está ali. Tenho formigas no corpo e na suposta alma. Padeço de borboletice mental.

Escrever é minha garantia de passagem só de ida. Sento no banco de trás e digo ao condutor cerebral, just drive.

Leio e escrevo como quem revira caçambas. Participo de banquetes nababescos sem jamais conhecer a plenitude (alguém realmente sabe quando parar em um banquete?). Já tive indigestões literárias e cometi orgias textuais.

Ler é fácil. Palavras ficam sempre ali, boas ou ruins, alinhadas uma depois da outra, em fila indiana. Da esquerda para a direita – por enquanto só leio e escrevo em padrões ocidentais.

Difícil mesmo é escrever quando se vive na inquietude. O raciocínio nem de longe se parece com uma linha reta. Está mais para um novelo emaranhado, desses que os gatos jogam pra lá e pra cá. O prazer não está em encontrar o fio da meada, mas tornar essa tarefa impossível.

Ao cabo, um leitor voraz muitas vezes prefere não escrever, ou escreve com medo. Literalmente com as pontas dos dedos. Tem receio de confundir, falar bobagem, chocar. Pior ainda, dar de cara com o horror de não se fazer compreender.
Pior do que ser mal compreendido? Ser compreendido e ignorado. Receber do leitor um grande bleh.

A não ser que.

Dane-se a coisa toda!

Equilíbrio dinâmico. Se você não escrever você vai cair. Perdão, Leitor, mas não posso me machucar. Dada a largada, cada parágrafo é minha história fundamental. Aumento a velocidade enquanto percorro esquinas de um mapa impresso de cabeça pra baixo. Minhas avenidas, as vielas do carona, sinalizações escritas com vinho, manchetes eletrônicas piscando. Quem colocou essa história ali?! Não posso parar, não desvio. Atropelo, recebo as multas.

Desequilibradamente mantenho meu curso, minha salvação.

Perco o medo ao mesmo tempo em que abro mão dos sentidos.

O que eu escrevo é isso aí. O registro que surge da viagem desembestada. A minha vida nunca é a mesma por dois dias consecutivos. Lendo o que eu escrevo, desejo que vocês descubram que a sua também não. A de ninguém é. Não pode ser.

Se um dia quiser escrever, permita deixar-se invadir pelas esquinas do mundo e dos outros. Afrouxe o cinto. O desastre nesse caso, é um espetáculo fundamental. De descoberta, de novos ângulos, de vida após a vida.

16 thoughts on “Não me basto, preciso andar

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