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Tudo sempre está bem

20 de maio de 2016

Quem nunca se dedicou a responder mentalmente essa pergunta trivial?

“Oi, tudo bem?”

– não, não está. Estou muito mal na verdade. Não sei explicar, não há um motivo específico. É um vazio cheio de coisas do passado. Outras do presente. Algumas eu nem sei, pra te falar a verdade. Acho que peguei uns trecos por aí, sem querer e, tum, joguei no meu vazio. E agora é isso. No silêncio esse bicho me consome. Sai das sombras e me pega aqui, no ponto de ônibus. Era pra estar tudo bem, mas eu olhei pra essa senhora aqui do lado e, veja a blusa dela. Tem esses cerzidinhos. Eu olhei pros cerzidinhos e comecei a chorar por dentro. A gente sabe que hoje uma blusa custa o quê? Outo dia vi uma loja onde tudo valia R$12. Juto por Deus, tudo. Aí é esse o mundo, essa senhora aqui do meu lado, ela não tem R$12 pra comprar uma blusa pra ela e está tão frio. O cerzidinho me faz pensar que ela precisou comprar um pouquinho de músculo pra colocar na sopa, que provavelmente tinha batatas e um caldo que imita Knorr, pra render. O cerzidinho é porque ela comprou a touquinha pro neto, que ela leva na escolinha de manhã. Tão bonitinho, com orelhinhas de lã acrílica. Ficou contente, ganhou beijo do tipo brigada-vovó. Ela está bem, conferindo o número do ônibus que vem chegando, mas eu tô aqui, paralisada no cerzidinho.

Tudo bem?
– tava, eu tava bem sim. Aí vi que era hora do almoço e veio aquela vontade de comer uma coisa bem gostosa. O diacho de vontades de coisas que a gente nunca sabe o que é. Pensei que fosse esfiha. Lembrei que tem 3 dedos de massa e aroma natural de recheio. E nhoque? Certeza que é nhoque. Aonde vou encontrar nhoque aqui, agora? De batata, de mandioquinha. Ai, eu matava por um nhoque de mandioquinha agora. Matar, melhor verbo. Não posso comer farinha. Eu e o maldito mundo moderno. Tacaram química no trigo, deu no que deu. Esfiha ou nhoque, é comer e preferir estar morta – pelo menos nos próximos 2 dias. Minha avó diz que nhoque bom não leva farinha. Bem-vinda, Vó, ao mundo sem nhoque bom. Como se isso me impedisse de me entupir de farinha. É só comer e não reclamar; mas fica a consciência sussurrando: tá morrendo de farinha…tá morrendo de farinha. Queria ser dessas pessoas que perdem a fome. Nunca fui, jamais serei. Tenho detector de fome. Eu sou a fome. Me mate de uma vez, me dê pão, por favor.

Tudo bem?
– que bom que você perguntou. Sabe que não sei? De repente alguém de fora pode me ajudar. Tem essa coisa que eu não sei explicar. É um termômetro todo meu, natural, e às vezes ele marca -30 graus. Do nada. Acordo e está lá, tudo congelado. Não faz o menor sentido. Do lado de fora nada mudou. Nenhum dado novo a acrescentar. Ontem, temperatura amena, 22 graus, a vida fluindo. Hoje, me dói o ciático, incomodado pela armadura glacial. O que eu olho tem essa distância a mais, provocada pela crosta de gelo. Não é que eu não enxergue, mas os contornos ficam comprometidos. Só não me peça pra tocar em algo sem luvas. Provavelmente não vou chegar nem perto da superfície com tanto forro e isolamento. Mas eu toco. Eu carrego, eu aceno. Sou funcional, percebe? Só não posso adivinhar com que acessórios vou acordar, luva de pelica ou óculos de sol. Que mal tem, né mesmo? Questão de adaptar. Eu me adapto; deve ser mais difícil pros outros, pra quem está perto.

Mas estou monopolizando a conversa, e você, tudo bem?

Ué, sumiu, tava aqui agora mesmo.

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