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Uma Dama

5 de maio de 2016

Em algum lugar da Europa; 1900 e pouco.

“Por mim, eu não mentiria jamais. Que isso fique bem claro, jamais.

Eu bem disse: por mim. Os outros não pensam assim; no que sou levada, constantemente, a construir, como dizer, afirmações que nem sempre condizem com a realidade crua dos fatos. E com a hipocrisia de muitos contemporâneos meus.

Juro que tentei fugir desta natureza ruinosa que me foi destinada. Porém, em cada parte do meu corpo há um grito muito maior do que a ênfase que o vigário embute nos Mandamentos. E existem muitas dentro de mim, enquanto os Mandamentos são apenas dez. Vê-se logo que a primeira batalha já se inicia perdida.

Mas era de mentira que eu falava, e de como fui aprisionada em sua morada, contra minha vontade.

Nascer mulher já é uma forma de principiar mentindo. De cada palavra proferida, em alto e bom som, pelo pai, até o beijo ordenado pelo padre, há dezenas, centenas de pequenas mentiras, escondidas em nossos consentimentos tímidos. Na nossa cabeça sempre baixa, nos nossos olhos que sempre se voltam para o chão.

Não sou nem um pouco diferente das outras. Ou não era. Também consenti. Também baixei o olhar e vim parar aqui, com as mãos enfiadas nessa água gordurosa da louça do jantar que eu mesma preparei.

Jantar preparado às pressas, depois que ela, a Louca, chegou. Veio da rua, arfando, ruborizada e enfiou-se nesse corpo de avental, que prontamente se pôs a preparar o feijão.

No fundo penso que ela sempre esteve aqui. É certo que nunca foi tão livre, mas soube aguardar o momento certo para tomar de assalto essa vida morna que aqui jazia.

O ofício da mentira eu já conhecia antes da sua chegada, não há como negar. Em cada sorriso contido aos rapazes no passeio. Em cada beijo sem desejo nesse marido que eu não escolhi. E no prazer mais do que mentiroso, falso, circense até, naquelas noites semanais sob os lençóis que eu bordei.

Enfim, ela, a Louca, soube terminar o que aquela voz perdida em minha cabeça iniciara. Um dia, sem maiores preâmbulos, soltou-se das amarras de falsa decência e atirou-se porta afora.

Uma Louca sem nome e sem dono. Que toma o bonde até o mais distante que o tempo lhe permite ir. A mulher-lábios, a mulher-perfume. Talvez faminta. Que busca com o olhar um Estranho que lhe sirva. Qualquer um, cujo cheiro lhe agrade. Qualquer um como ela, sem nome, sem rosto. Apenas alguém.

Porque só os estranhos conhecem a volúpia. Ou talvez a volúpia seja apenas um presente embutido na surpresa da primeira vez. E sempre é primeira vez, porque a Louca nunca é a mesma e o Estranho também não.

Daí a necessidade da mentira. A sociedade não está preparada para verdades nuas. Não tão nuas quanto quanto loucas e estranhos.

As damas ainda precisam mentir para que as Loucas gozem.”

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